"Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada".
(Vinícius de Morais, in Antologia poética)
* * *
Estou retomando a idéia de ter um blog depois de um longo de tenebroso inverno pensando a respeito! Estou com saudades: de escrever, de sonhar, de ser um pouco mais "pés nas nuvens"... Faz bem voar, tão bem quanto mergulhar em si mesmo. E o mar de incertezas que é a vida acaba, de vez em quando, nos arrastando ao mesmo ponto em que começamos. Não, não é o meu caso! ;) Não começo do mesmo ponto, mas um recomeço exige, quase sempre, uma reflexão daquilo que já passou. Não é verdade?
Postado a primeira vez em 22/05/2007
terça-feira, 25 de setembro de 2007
Ausência
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